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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Escrever Sketches de Comédia Segundo Richard Herring, David Mitchell and Robert Webb - Parte V (E Final)

Mitchell And Webb On Writing Sketches

Make sure you have an idea before you start. It's no use sitting in front of a blank screen saying "right, it could be anything." "Anything" isn't a brief, it's a mental wilderness. You need to decide what you're going to write before you write it, and this is best done away from the winking cursor.

A sketch needs a premise, a core funny idea that is its reason to exist. As soon as a sketch begins, the audience looks for this premise and it needs to be apparent. Presenting a character? Make sure the funny thing about them is expressed early. Taking the piss out of some element of modern life? Present it at the beginning and quickly undermine it.
You need the element of surprise in comedy but, before that, you need to make people comfortable with where you are. There need to be, to quote the protesting philosophers from the Hitchhiker's Guide to the Galaxy, "rigidly defined areas of doubt and uncertainty". So establish the setting first, make it clear why it's funny, throw in a surprise and get out. Ideally the last joke, or punchline, should be the best but the sad fact is there are more premises than punchlines. It's a great argument against intelligent design.

Sketch comedy doesn't benefit from the audience's loyalty to characters, it's only as funny as its last joke. But its advantage is that it can embrace any setting, subject or situation. Use these strengths by having lots of short and contrasting items. That way, if the audience doesn't like one sketch, you soon get the chance to win them over with something else.

· David Mitchell and Robert Webb are the creators of TV series That Mitchell and Webb Look.

Escrever Sketches de Comédia Segundo Richard Herring, David Mitchell and Robert Webb - Parte IV

Exercises: Character comedy

Watch a whole morning of daytime telly. Look out for an interesting character and then try and write a sketch about them. Don't try to parody the shows you have watched, just try to find a persona and then put them into a real life situation.

Many of the Little Britain characters were created this way.

Escrever Sketches de Comédia Segundo Richard Herring, David Mitchell and Robert Webb - Parte III

Sketch Writing Tips

· Keep an eye out for interesting real life characters. My driving instructor seemed overly critical of my inability to drive, given that that was the reason I was employing him, so I wrote a sketch about an instructor who berates his pupils for being non-driving idiots.

· Don't start with a catchphrase. It will seem forced and probably end up with you creating a one joke persona. Create the character, write some sketches and a catchphrase might present itself. Look at Al Murray the Pub Landlord. It's a multi-layered persona and the catchphrases "I was never confused", "rules is rules" and "glass of white wine for the lady" come out of the character rather than vice versa.

· Starting with a simple premise and exploring the consequences can be better than trying to conceive something outlandish. Monty Python's dead parrot sketch begins with the premise of a pet shop owner selling a customer a deceased bird. The genius is in the execution.

Escrever Sketches de Comédia Segundo Richard Herring, David Mitchell and Robert Webb - Parte II

I soon learned that even though we were paid by the minute, that it was foolish to write 5 minute sketches. The show was only 25 minutes, so longer skits would be binned, while lightening gags might fill a gap. It was economical to be economical.

Now I prefer to stretch an idea as far as it will go, then a little further. If you can learn to write a blistering 60-second skit with four laughs, a beginning, a middle and an end, then everything else will be easy.

While Weekending is no more, there are plenty of sketch shows on radio and TV that invite outside contributions. If there are lots of writers' names in the credits, write a couple of sketches in an appropriate style (even if it's not your particular sense of humour), send them to the producer and you will probably get feedback.

Or you can set up your own sketch group and take a show to the Edinburgh Fringe or film it for YouTube. Try to make your own material as original as possible. When Stewart Lee and I began writing together at university, we set rules about things we wouldn't write about: celebrities, parodies of TV shows, political satire, all of which were in vogue. By limiting ourselves we came up with a lot of unusual ideas and created our own voice.

Escrever Sketches de Comédia Segundo Richard Herring, David Mitchell and Robert Webb - Parte I

In The Guardian, Monday 22 September 2008

You may be tempted to crack straight on with a sitcom, but start small. Containing an idea in a two-minute sketch will teach you about structure, establishing characters and how to write pithy, economical dialogue.

It is easy to put on a sketch show at your college, pub or on the internet. A producer will be happier to read a page or two rather than a whole script and there are radio and TV shows which are looking for shorter sketch material, which means you have a much better chance of selling your work.

I started my professional career writing topical sketches for the now defunct Radio 4 show Weekending. I actually pretty much loathed the programme, as it was rather formulaic and rarely biting. Yet I stayed for a year, serving an apprenticeship that taught me many skills: from the mundane business of how to format a script (for this and further advice see bbc.co.uk/writersroom) to technical tricks such as how to avoid clunky exposition like:

FX: Knock on door
MAN: You asked to see me Prime Minister!

This opening establishes location and characters artlessly. You need to look for more subtle ways to inform the listener or you will lose their interest and respect. Don't treat them like they're stupid.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Humor e Literatura Segundo O JL IX (Final)

JL: A literatura de humor também pode ser grande literatura?

Isabel Ermida: Sem dúvida. Os nomes acima mencionados, bem como muitos outros não referidos, sobretudo no universo anglo-americano, assim o provam. Arrisco-me até a defender que não há boa literatura sem humor - porque aquela versa sobre a natureza humana e esta se manifesta exemplarmente pelo riso. Atribui-se a Aristóteles a máxima "O riso é próprio do homem", pelo que diria, sob pena de soar pomposa, que onde a vocação universalista da literatura melhor se plasma é nesta dimensão fundamental que distingue os humanos dos animais. Os preconceitos contra a literatura de humor, a que já me referi há pouco, são uma realidade, mas reitero que o são mais em países como o nosso, em que a literatura ainda tem um carácter elitista e está associada a uma ideia de erudição e cultura de conotações bastante sorumbáticas. Em Inglaterra, onde as pessoas lêem romances de bolso no metro londrino e nas filas das cantinas, não me parece que essa questão se coloque, pelo menos com a mesma premência.

Leia a entrevista com Ricardo Araújo Pereira e as respostas ao inquérito de Jacinto Lucas Pires, Manuel António Pina, Manuel Silva Ramos, Mário de Carvalho, Pepetela e Rui Zink na edição em papel do JL.

Humor e Literatura Segundo O JL VIII

JL: E no panorama nacional?

Isabel Ermida: Salvo melhor opinião, os portugueses são mais tristonhos também no ofício literário. Exceptuando as cantigas trovadorescas de escárnio e mal-dizer, os autos satíricos de Gil Vicente e, mais tarde, os poemas ousados de Bocage, a literatura lusa não abunda em exemplos de humor assumido. É claro que Eça é senhor de uma finíssima ironia humorística, fazendo uma sátira de costumes que continua, de tão intemporal, a provocar o riso nos nossos dias. Mas o que temos sobretudo é ocorrências de humor na literatura, mais do que "literatura humorística" propriamente dita. Por exemplo, Mário de Carvalho escreve com indesmentível humor, e até em Lobo Antunes o cómico marca presença: umas três boas gargalhadas em quinhentas páginas não são um mau saldo. Mas de um modo geral não me parece que seja pelo humor que a literatura lusa se destaca. Apesar disso, há a registar duas grandes antologias de humor português: a primeira de 1969, ed. Afrodite, conhecida por "o tijolo" de tão espessa; a segunda de 2008, ed. Texto, cobrindo 51 nomes, embora nem todos literários.

Humor e Literatura Segundo O JL VII

JL: Quais são para si os principais clássicos da literatura de humor?

Isabel Ermida: No contexto anglófono, nomes como P.G.Wodehouse e Evelyn Waugh estão fortemente ligados à tradição humorística britânica de entre as guerras, do mesmo modo que David Lodge e Tom Sharpe o estão na actualidade. Um nome grande da literatura do outro lado do Atlântico, o de Philip Roth, é na minha opinião indissociável do humor - humor complexo, multiforme, híbrido, combinado com a típica angst judaica. Quem não leu o Complexo de Portnoy entre risos? E que dizer de The Breast, uma história surrealista de um seio gigante que ganha vida própria e arrasa tudo e todos à sua passagem? Seja como for, a galeria é vastíssima, como se pode comprovar pela extensão das colectâneas de autores humorísticos: o Oxford Book of Humorous Prose, por exemplo, reúne 238 autores ao longo de 5 séculos, de William Caxton a Sue Townsend, passando por Lewis Carroll, James Thurber e Kingsley Amis.

Humor e Literatura Segundo O JL VI

"O riso é próprio do homem"

JL: Muitas vezes, diz-se que o humor é eminentemente oral. Concorda?

Isabel Ermida: Nem sempre o humor oral é mais fácil do que o escrito, uma vez que depende crucialmente do ritmo, da formulação exacta e, não esqueçamos, da ocasião! Dizer anedotas num funeral ou arriscar uma piada homofóbica numa reunião da ILGA não é muito promissor. Se é verdade que no humor oral a linguagem corporal ajuda muito quem a domina, ela pode também funcionar como um entrave aos menos dotados: quantas vezes uma piada não perde a graça quando contada por alguém "sem jeito"? Em contrapartida, no humor escrito a linguagem verbal basta-se a si própria, mas isso não é forçosamente um obstáculo ao sucesso: veja-se a popularidade imensa das anedotas on-line ou, já agora, das crónicas do Ricardo Araújo Pereira ou do José Diogo Quintela. No caso destes últimos, parte do truque reside no talento de imprimir um ritmo coloquial à escrita, combinando elementos constantes de surpresa que não deixam o ritmo cómico esmorecer.

Humor e Literatura Segundo O JL V

JL: Em que casos, na literatura, se recorre mais frequentemente ao humor?

Isabel Ermida: O humor percorre géneros variados e costuma, por regra, intrometer-se nos temas mais insuspeitos. Quando falamos de comédia, estamos obviamente a falar de uma situação literária em que o humor subjaz a todo o edifício dramático. Mas o humor também pode existir, pontualmente, na tragédia. Por vezes, até, são os acontecimentos mais trágicos que inspiram o humor, sendo o riso a maneira de escaparmos ao medo que eles nos provocam (afinal, rirmo-nos da morte é a conquista última). Isto explica o facto de, no dia seguinte ao 11 de Setembro, já circularem na Net piadas relativas aos ataques. Este mecanismo de escape e libertação também abrange os temas-tabu, cuja exploração viola as regras sociais de decoro, auto-controlo e compostura impostas desde a infância. Aqui se inserem as piadas sexuais, escatológicas e aquilo que em inglês se designa por sick jokes, que mais não são do que a transgressão das normas e o rasgar do colete-de-forças que a sociedade impõe ao indivíduo. O "politicamente incorrecto" no humor é justamente a expressão do ultrapassar desses limites.

Humor e Literatura Segundo O JL IV

JL: Como distingui o humor da ironia, do sarcasmo, do escárnio e da zombaria?

Isabel Ermida: A ironia e o sarcasmo podem ser humorísticos ou não. O uso humorístico desses mecanismos é muito frequente na literatura, sendo comum a ambos a tal cisão de sentidos de que falei. No entanto, na ironia o que se diz é o contrário do que se pensa (por exemplo, dizermos de um preguiçoso que "se mata a trabalhar"), ao passo que no sarcasmo o que dizemos está no mesmo campo semântico do que pensamos, mas de uma forma velada, restringida ou, como dizem os ingleses, understated (do preguiçoso aqui dir-se-ia que "não acredita em matar-se a trabalhar"). O escárnio e a zombaria, por seu turno, são a expressão clara de uma motivação agressiva para a produção do humor, que é também equa0cionada com sentimentos de superioridade: daí a tradição circense dos anões e doutros deficientes, a exploração da gaguez para fins cómicos, ou ainda o simples riso perante aquele que tropeça numa casca de banana.

Humor e Literatura Segundo O JL III

JL: Então qual é a melhor forma de definir o humor literário?

Isabel Ermida: Definir o humor é uma tarefa tão difícil que se diz que a própria tentativa é uma piada. Talvez devamos começar por distinguir "humor literário" (ou "humor na literatura") de "literatura humorística". O primeiro consiste em situações pontuais que, curiosamente, assumem contornos muito semelhantes aos das anedotas, nas quais se dá uma cisão entre dois sentidos opostos mas que se sobrepõem, estabelecendo uma incongruência. Esta cisão costuma ser imprevista e a sua expressão breve. Ora, no romance e no conto estes elementos estão presentes nos apartes humorísticos dos narradores e das personagens, funcionando como "condimentos" do edifício narrativo e ficcional. Já na "literatura humorística" o humor é, não um condimento, mas o "prato principal", consistindo num "jogo" mais extenso, e sistemático, em que a dita incongruência de sentidos sobrepostos se constrói ao longo de todo o eixo narrativo, dela dependendo a economia geral da história. Em alguns casos, a estrutura humorística do enredo culmina nas páginas finais do livro numa espécie de punch line (típico também das anedotas), em que se dá uma reviravolta absurda ou surpreendente da ordem das coisas.

Humor e Literatura Segundo O JL II

Jornal de Letras: Como podemos caracterizar o humor na Literatura? É uma relação próxima ou conflituosa?

Isabel Ermida: Só será conflituosa aos olhos do analista, que muitas vezes tem um preconceito contra a suposta "leveza" do humor e outro a favor da "seriedade" - leia-se "sisudez" - da literatura. No contexto anglo-saxónico, em que a chamada "airport literature" tende a existir sem complexos, a tradição humorística na literatura é mais enraizada. Mas não devemos tomar os dois fenómenos como interdependentes. Há humor na literatura canónica tal como o há na de massas. O que há também, sobretudo em Portugal, é o estigma que a canonização literária sempre imprimiu à ideia de facilitismo e, até, do dito prazer simples. Existe a noção de que a literatura deve ser difícil, ao passo que o riso é, por definição, fácil (a não sê-lo, não ocorre).

Humor e Literatura Segundo O JL I

Jornal de Letras, Tema de capa: "Não há boa literatura sem humor"

No tema de capa do n.º 1026, agora nas bancas, o JL procurou saber por que razão não se acha tanta graça ao Humor quando ele se intromete nas páginas de um romance:

Foi nas colectâneas de contos de Woody Allen, assim como nos seus filmes, que Isabel Ermida, 42 anos, encontrou o estímulo necessário para fazer do humor o tema central das suas investigações universitárias. E o que à partida poderia parecer uma tarefa impossível no meio académico, revelou-se não só viável como pertinente. "No âmbito dos Estudos Anglísticos, em que me movo, a tradição humorística é muito forte, pelo que difícil foi fazer a selecção dos autores a analisar", adianta, ao JL, a prof.ª do Departamento de Estudos Ingleses da Universidade do Minho. "Por outro lado, a pesquisa académica tende a tornar-se penosa, exigindo cargas muito pesadas de tempo, dedicação e perseverança, o que nem sempre é fácil de contrabalançar ludicamente. Pareceu-me desde o início que lidar com o tema lato do humor, e dar no percurso algumas gargalhadas, seria uma resposta a essas dificuldades". Até agora, como diz, não se arrependeu da escolha. O seu doutoramento versou sobre os mecanismos linguísticos do humor literário, depois de ter defendido uma tese de mestrado sobre A Ambiguidade Linguística em The comedy of Errors, de William Shakespeare. Experiência suficiente para garantir: "Não há boa literatura sem humor"

sábado, 16 de janeiro de 2010

"Para Comprovar Uma Vez Mais Que O "Senhor" Não É Pessoa (Em Quem Se Possa Confiar)":

- (...) Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar.

O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio fillho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia da viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeria, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.

In Caim, de José Saramago.

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Imagem roubada a We Have Kaos in The Garden, por Kaos.

Risoteorias

Não há comédia para além do que é especificamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia. Nunca será risível. Poderemos rir-nos de um animal mas porque lhe teremos visto uma atitude de homem ou uma expressão humana; poderemos rir-nos de um chapéu mas [então] (...) rimo-nos da forma que os homens lhe deram. (...) Para compreender o riso, devemos situá-lo no seu meio natural, que é a sociedade.

In O Riso, de Henri Bergson.

Riquezas do Corpo e da Alma - O Rival Desigual

(...) Arrebatando a oportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao magistrado, largamente, como a um pai.
- É verdade, a titi tem-me amizade... Mas acredite Vossa Exclência, dr. Margaride, que o meu futuro inquieta-me às vezes... (...) Porque enfim a titi é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, único paente, único herdeiro; mas... (...)
- A titi tem-lhe amizade - atalhou com a boca cheia o magistrado - e você é o seu único parente... Mas a questão é outra, Teodorico. É que você tem um rival.
- Rebento-o! - gritei eu, irrestìvelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa. O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr. Margaride reprovou com severidade a minha violência.
- Essa expressão é imprópria de m cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral, não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!

In A Relíquia, Eça de Queiroz.